Tome a sopa, mas não repare se o prato estiver rachado

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PRATO RACHADO

Há várias situações vivenciais em que nos deparamos com a ingratidão proveniente de corações duros. Geralmente essa deselegância é oriunda de pessoas que não admitem reconhecer que foram auxiliados em algum momento. O ego as faz sentirem-se humilhadas, diminuídas, assim sendo, procuram no emissor da boa ação, um defeito, mesmo que mínimo, para descarregar sua desforra e seu despeito.

Todos nós estamos sujeitados a sofrer determinadas críticas e desestímulos. Como aprendiz do ofício de escritor, sofri muito com o feedback dos textos que publico há muito. Recebo muito retorno positivo, mas uma minoria ínfima de leitores, ocasionalmente tenta desestimular-me veementemente.

Com o tempo aprendi a aproveitar os e-mails anônimos ─ através dos quais, pessoas sem rosto me dão aulas sobre concordância verbal, emprego da crase, sintaxe, locuções adverbais e objeto direto ─, para aprender, já que fui um péssimo aluno, porquanto, devemos sempre reconhecer e assumir nossos limites, no entanto, é essencial termos a consciência de saber medir as palavras, para que elas não saiam de nossa boca e mãos carregadas de aspereza, denunciando, assim, nosso vazio interior.

Quando comecei escrever, ante as críticas recebidas recolhia-me desestimulado e parava de publicar meus textos, pois, temia ser criticado por meus eventuais erros relacionado à gramática. Isso tudo mudou depois que visitei a Casa Mario Quintana em Porto Alegre e o Memorial de Erico Veríssimo em Cruz Alta – RS. Observando os escritos desses grandes escritores, percebi os inúmeros erros gramaticais e gráficos em seus originais, todos grafados e corrigidos várias vezes. Nessas oportunidades dei-me conta que absolutamente ninguém domina completamente o vernáculo da língua mãe.

Com o escritor e psicanalista Rubem Alves, aprendi ignorar as críticas e prosseguir meu caminho através da letra. Esse grande escritor brasileiro conta que bastava ele publicar um livro para receber dias após o lançamento, uma carta com inúmeras correções gramaticais e gráficas. Essa história está no texto “A língua”, que faz parte do livro “Ostra feliz não faz pérola”. Rubem termina seu escrito com a seguinte mensagem a seu crítico contumaz: “O que me deixa triste sobre esse amigo oculto é que nunca tenha dito nada sobre o que eu escrevo, se é bonito ou se é feio. Toma a minha sopa, não diz nada sobre ela, mas reclama sempre que o prato está rachado.”

Acredito que entre as mais importantes razões de nosso viver está na sublime frase “conheça a ti mesmo”, atribuída ao filósofo grego Sócrates. No entanto, o exercício do autoconhecimento choca-se violentamente com nosso ego, que o repele, atribuindo a outro aquilo que o fere. Nesse contexto, faz-se necessário todo o cuidado ao julgarmos as pessoas, porquanto, os defeitos que constatamos no outro, na verdade, são reflexos das lacunas que trazemos na alma, isto é, somos espelhos uns dos outros e temos por obrigação sermos gratos por isso.

A gratidão repousa em aceitar aquilo com que nos identificamos no outro, não só os aspectos positivos, mas principalmente os negativos, visto que é uma oportunidade impar de reconhecermos nossos limites e defeitos e a partir disso, buscar aprimorar nossas ações e atitudes. A gratidão também é humildade, isto é, tomar a sopa e beneficiar-se de seus ingredientes sem se importar se o prato está ou não rachado, porquanto é apenas um recipiente utilizado para que a sopa chegue até nós.

A cada passo que damos na vida desejamos o nosso encontro com a verdade, mas, orgulhosos que somos sequer aceitamos as nossas próprias verdades. É preciso deixar de lado todo o preconceito, todo o julgamento, conscientes de que somos perfectíveis, criaturas sujeitas a erros e acertos, somente assim encontraremos dentro de nós a Verdade Maior, que através dos maus hábitos tratamos de isolá-la em nosso próprio ser. Sejamos, pois, gratos a tudo que vem até nós, pois nada se perde, tudo se torna oportunidade de aprendizado, bastando para isso, não nos deixar levar pela tirania do ego.

Davi Roballo

Jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing \ Especialista em Jornalismo Político.

 

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