Reflexões de um pessoa com mais de quarenta

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Quarenta outonos, quarenta invernos, quarenta primaveras e quarenta verões, e cá estou com o olhar perdido tentando avistar o que passou, o que já foi, enquanto que a linha do horizonte chama por mim apontando uma estrada mais estreita e acidentada, por onde não se pode mais avançar com a mesma energia e afã de outrora.

Sinto-me despido. Despido de meu afã, de minha irresponsabilidade, de minha adolescência, talvez, eu a tenha retardado até chegar ao ápice da montanha da vida. Nessa nova fase que agora se apresenta, parece ser essencial pensar mais e falar menos, pois a calma e o analisar se impõem como regra.

Nesta altura, é preciso planos para descer as encostas escarpadas, como também estratégias para fugir dos demônios internos, que se aproveitando do sibilar do vento alertam que depois do topo da montanha a estrada prossegue em declínio, em direção à falência paulatina de meu organismo, e mesmo parado me aproximarei dia a dia de uma porta, que ninguém sabe com certeza onde dará.

Quarenta anos é o início de uma nova fase, é a vida que se desenha em outro cenário altiplano, quando se pode apreciar a beleza do que não foi contemplado na juventude, pois nessa fase da vida se trafega velozmente pela horizontal da planície.

É no vértice da montanha da vida que observamos mais uma vez, mas de forma mais contundente, que somos sós. Ao estender o olhar sobre a estrada percorrida, percebemos que o primeiro choro foi nossa primeira decepção ao perceber mesmo que de forma rudimentar que não somos parte acoplada a outros, no caso do nascimento, a mãe. Mas o tempo ─ sempre o tempo ─ arrefeceu a sensação de solidão através da atenção a nós dispensada, até que novamente no primeiro dia de escola ela nos assalta veementemente e novamente nossas relações interativas nos salvam dessa triste realidade. E pela terceira e penúltima vez no ápice da montanha, nos canteiros dos quarenta, ela se apresenta novamente a acariciar nossa pele, que começa a sentir os efeitos da gravidade e novamente é preciso criar estratagemas para transformar em acepção positiva de vida a decepção de ser só.

É no rol dos quarenta que temos a oportunidade de ver que não somos tudo aquilo que imaginamos ser, mas de certa forma essa característica e sintoma esquizofrênico de pensar ser o que não é nos conduz por um caminho irreal sobre o caminho real que demasiado tenros de idade e experiências não suportaríamos.

Ao iniciar o declínio em direção à falência programada de nossos genes já não nos importamos com essa decepção, pois se torna uma acepção de vida. Uma aceitação que deliberadamente corre a nossa frente a fim de no portão final nos abraçar mortalmente a rir-se enquanto fala a nossa consciência, “nasceste, viveste e morreste só”.

É só no topo da montanha da vivência que adquirimos coragem para discordar de Thomas Morus e John Donne quanto à ideia de que “o homem não é uma ilha”. Sim, somos uma ilha solitária surrada pelas ondas dos mares bravios da existência que nos molda dia a dia, pois estamos a todo o momento em transformação. Conforme Heráclito de Éfeso, “Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece, já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras.”. Somos uma ilha sim. O que nos liga a outras ilhas humanas é a nossa necessidade de calor, de compreensão, de nos completar com aquilo que nos falta, como também a resignação de saber que quanto a essa solidão, não somos sós, isto é, somos uma contradição por vivermos solitários, mesmo acompanhados.

Davi Roballo

 

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