O barco da vida

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Certa vez um homem determinado a ficar famoso resolveu atravessar o lago Baikal – o maior e mais profundo da Terra -, no menor tempo possível. No dia programado acionou seu cronômetro e partiu remando tão rápido que em pouco tempo havia sumido no horizonte. Horas se passaram e a sede veio se tornando insuportável, mas ao procurar sua bolsa de água percebeu que havia deixado suas provisões na beira do lago.

Tomado pela sede pensou beber a água do lago, no entanto, cada segundo perdido apanhando a água seria um desperdício de tempo, pensando assim, resolveu continuar remando. Ao clarear o dia avistou a margem do lago, mas não tinha mais forças, tanto que perdeu a consciência, o remador exigiu tanto de si que acabou desidratado. Dias depois foi encontrado morto em seu barco na margem no lago, isto é, havia chegado ao outro lado, mas sem vida, pois morreu de sede remando no maior e mais profundo lago de água doce do planeta Terra.

Os tempos modernos tem nos obrigado a remar cada vez mais rápido nas águas da vida em busca de evidência e status. Estamos tão focados em ser alguém e a provar para pessoas que sequer se importam conosco, que temos valor ao mesmo tempo em que ignoramos o valor que temos diante da vida e ela diante de nós. Há uma desidratação em nosso campo emocional por falta de amor, embora estejamos inundados de sentimentos, mas sentimentos reprimidos que não encontram entre nossos desejos espaço para fluírem e nos aliviarem a alma das tensões diárias.

A ambição desmedida tem nos cegado a ponto de não percebermos que o ser humano não soma mais um ano de vida, mas sim, o subtrai, pois a cada ano menos tempo de vida temos. Pode ocorrer um dia de acontecer conosco o que aconteceu com um homem já idoso, que sentindo seus dias escoarem de pressa fez uma retrospectiva de sua vida e concluiu que havia perdido muitas oportunidades de bem viver, apesar de todo dinheiro acumulado.

Lembrava o homem que ele não conhecia a rua onde morou por mais de 50 anos e que apesar de acordar antes do Sol despontar no horizonte, jamais parou para contemplá-lo. Ele percebeu que enquanto sua vida esvaziava, seus sentimentos se comprimiam dentro de si, visto que não havia como se escoarem através de emoções e das lágrimas. O idoso em suas reflexões percebeu que todas as preocupações que tinha com futuro foram tão eficientes quanto ensinar um sapo a andar de bicicleta.

O velho debruçado em sua janela deu-se conta de que jamais se permitiu ficar por baixo, jamais havia perdido no mundo dos negócios, mas que deveria ter se permitido perder algumas vezes, pois naquele momento em que perdia para o tempo, a derrota lhe doía muito, pois jamais havia sentido tal dor, se tivesse experiências talvez seu final fosse menos dolorido, principalmente ao dar-se conta que podia ter viajado mais, amado mais, andado de pés descalço e ter tomado banhos de chuva como uma criança, sem se importar com a opinião alheia.

O barqueiro e o idoso somos nós conduzindo nosso barco pela vida, sendo assim, cabe-nos perguntar a nós mesmos: aonde quero e como desejo chegar? Vale a pena toda essa loucura e sacrifícios para que eu tenha o carro do ano, mantenha meu status e os holofotes sobre a personagem que represento no meio social?

Precisamos atentar que na vida tudo é passageiro, nada é permanente. Cabe ressaltar ainda, que uma existência sem arrependimentos depende de um viver inundado de sentimentos que se revigorem sempre, como também está no fato de cultivar interiormente a gratidão pela vida, vivendo-a sem atropelos e com dignidade, deixando os sentimentos fluírem sem medo de ser feliz, saciando a nossa sede de amor com o que a vida nos oferece…

Davi Roballo

Jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing \ Especialista em Jornalismo Político

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