Não te tornes propriedade de tuas propriedades

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PROPRIEDADE

Na época em que se tornou importante possuir bens materiais e títulos, o ser humano se convenceu gozar de uma liberdade sem precedentes, quando na verdade, tornou-se refém de tudo aquilo que adquiriu e adquiri levado pelo ímpeto consumista. Quem adquiriu alguma coisa leva isso para dentro de si, passa a zelar por ela, isto é, se importa com o que foi adquirido, já que importar significa trazer para dentro, neste contexto as pessoas estão sendo substituídas pela frieza da noção irreal da propriedade.

A escritora Cecília Meireles em um de seus aforismos diz que “é preciso amar as pessoas e usar as coisas e não, amar as coisas e usar as pessoas”. A autora, como foi uma pessoa sensível percebeu a grande inversão que o consumismo provoca na psique humana, que muitas vezes não consegue diferenciar as noções de poder atribuídas aos bens de consumo, propriedades e as relações humanas. Não precisa muito conhecimento sobre os processos mentais para saber que o poder advindo de bens é o que mais adoece o homem, enquanto que o bem querer, o amor e outras virtudes abonam e mantêm nossa paz espiritual.

Na Mitologia Grega, Tântalo julgando-se um deus poderoso, resolveu testar os demais deuses do Olimpo, para isso, sacrificou seu próprio filho Pélops e o serviu em um banquete. Zeus, o deus dos deuses para castigar Tântalo pela afronta, o condenou ao suplicio da fome e sede eternas. Preso por correntes no Tártaro (inferno) com água até o pescoço, acometido por uma sede extrema, quando se debruçava para bebê-la, a água simplesmente sumia. Sobre sua cabeça ficavam galhos de árvores frutíferas carregados de frutas, mas quando tentava apanhá-las o vento as tirava de seu alcance.

Assim como Tântalo, muitas vezes nos sentimos poderosos, ignorando a efemeridade e a própria banalidade que é sentir-se maior ou mais que o outro. Estamos tão cegos e desinformados a respeito do que realmente nos faz bem, que não percebemos que a industrialização, a febre consumista e a vaidade nos ludibriaram ao atribuir poder aos bens de consumo, tipificando-o nas marcas e grifes, aprisionando-nos nas grades quantitativas e qualitativas do próprio consumo.

Condicionados desde o nascimento a valorizar o que é exterior, palpável e impressionável aos sentidos, estamos investindo erradamente nossa capacidade inata de amar. Estamos vivendo como Tântalo foi condenado a viver, porquanto, parece que preferimos nos autossabotar a viver de forma insaciável, ou seja, as propriedades parecem estar tão perto, mas na verdade estão inalcançáveis ao coração, mesmo assim, somos impelidos a conquistá-las, para em pouco tempo substituí-las, na vã ilusão de que novas aquisições irão preencher o vazio de nossa alma.

Existe uma máxima que diz: quem tudo quer, acaba sem ter nada. Essa realidade é sentida por muitas pessoas ao atingirem a finitude, embaladas por arrependimentos percebem que nunca possuíram nada, mas que foram sim, possuídas pelas propriedades que julgavam ter. É nesses momentos que a realidade lhes concede a lucidez para perceber que uma casa de 300 metros quadrados cumpre a mesma finalidade de uma de 30 metros quadrados, ou seja, abrigar e proteger.

Somente o tempo através das experiências ensina a quem quiser aprender, que sacrificar amores e sentimentos filiais para acumular bens e títulos é prender-se no próprio inferno da insaciedade. Um dia o próprio tempo apresenta a conta e então é possível perceber o déficit inesperado por se ter investido de forma errada, visto que, o importante não é a vida que se leva, mas o que se leva da vida, isto é, na alma não há espaço para as coisas tangíveis que julgamos como nossas propriedades, mas há muito espaço para as virtudes que temos por dever conquistar…

Davi Roballo

Jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing \ Especialista em Jornalismo Político.

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