Entorpecer a alma

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Quando entrei naquele bar avistei um relógio,
O ponteiro menor repousava sobre o número cinco,
O maior encostava sua ponta no número sete
E outro ponteiro franzino corria
Em círculos em volta dos números,
Desesperado feito condenado que ruma ao cadafalso…
Na rua poucos transitavam sob guarda-chuvas,
Era fim de tarde e chovia torrencialmente.
Uma inquietação se debatia em meu peito,
Uma dor e uma saudade de algo distante,
Indecifrável e desesperante,
Pois dói ter saudade do que não se sabe,
Do que não lembra, mas sente ter vivido…
Assim que sentei à beira do balcão e pedi uma dose,
Logo um homem grisalho de olhar profundo
Sem muita cerimônia me pergunta:
– Por qual motivo vens a este pronto socorro,
A este ambulatório improvisado anestesiar tua alma?
Surpreso redargui:
– Como assim pronto socorro, ambulatório?
O velho riu e apontando um homem
Que sentado à direita em uma parte pouco iluminada do bar
Consumia uma garrafa de cerveja tendo um cigarro
Entre os dedos e um olhar fixado para além da vidraça
Que ficava para rua, na qual a chuva persistia.
Não entendendo nada do que se passava lhe interpelei:
– Não sei quem és e muito menos aonde quer chegar?
O velho riu e continuou:
– Nunca sabemos de nada! Não é mesmo?
Esse homem também não sabe por que
Três a quatro vezes por semana enche a cara.
Não sabe de olhos abertos, mas aquilo que dentro dele
Jamais dorme, sabe, e sabe muito…
Ele bebe para anestesiar a dor que traz na alma
Causada por uma ferida aberta
Desde que vem enganando seu sócio,
Para obter maiores lucros,
Pois a sua parte que nunca dorme secretamente acusa-o
De ter traído suas convicções religiosas e morais;
Ele está ganhando muito dinheiro e de olhos abertos
Se convence que bebe para comemorar isso,
Mas no meio da madrugada a outra parte dele
– A que nunca dorme- o atormenta com mil pesadelos
E agora sem que ele perceba retalha seu coração,
Mas ele esconde de si mesmo que por isso
Entorpece sua alma no álcool,
Na ilusão da bebedeira ser comemoração…
Sem que desse tempo de interrompê-lo
O velho fixamente olhando para as garrafas
Na parede do bar prosseguia:
– Veja aquela mulher muito bem alinhada,
Tanto na costura quanto em sua postura,
Logo a sua direita tomando um drinque
Enquanto desliza seu dedo sobre a tela de seu celular,
Desde que acorda entorpece seu corpo,
Para que através dele entorpeça sua alma.
Ela não se satisfaz sexualmente com o marido,
Então o trai eventualmente
Enquanto a parte dela que nunca dorme
Silenciosamente a condena por isso,
Pois ela está presa a palavras de um juramento
E a convicções religiosas que reprovam seu ato,
Mas ela acha que bebe para relaxar ante o estresse
Proveniente do trânsito e de seu trabalho…
Aquele outro homem, logo à direita da mulher
Também está em uma situação parecida,
No entanto, há anos tem uma amante fixa
E com ela um filho;
Sua esposa não sabe disso, muito menos os filhos.
Ele já está em um estado avançado, pois se entorpece,
Sempre que está acordado e muitas vezes
Acorda e corre até sua adega para afogar seu espirito
E com ele seus demônios internos,
Mensageiros de sua parte que nunca dorme,
Mas ele acha que bebe por gostar de sentir-se relaxado…
O velho fez uma pausa e me pergunta enfático:
E tu, porque vens a este ambulatório entorpecer tua alma?
Quando virei para onde estava o velho
Percebi que ele havia sumido,
Mas ao sair do bar o vi no reflexo da vidraça

Desenhado em meu próprio rosto…

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