A invisibilidade da violência doméstica

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Em 1973 o psicólogo NillsBejerot foi chamado pela policia de Estocolmo/ Suécia para encontrar uma resposta plausível ao comportamento de quatro pessoas que após um assalto frustrado a um banco passaram seis dias como reféns dos assaltantes e mesmo assim não queriam testemunhar contra os algozes, ao contrário, passaram a defendê-los. Nills concluiu que os reféns haviam criado empatia pelos assaltantes como forma de suportar a tensão da situação, ou seja, uma forma de sobrevivência que se manteve mesmo depois que os assaltes foram presos e julgados.Desde esse acontecimento, os casos em que o agredido defende o agressor, passaram a ser conhecidos como Síndrome de Estocolmo.

Entre nós, dificilmente alguém não testemunho um caso familiar ou de amigos, conhecidos, vizinhos, colegas de trabalho que vivem e/ou viveram sob o jugo de um opressor ao mesmo tempo em que defendem e/ou defendiam o próprio carrasco. Nesse contexto são inumeráveis as casas, lares onde a mulher dada a um papel coadjuvante se submete a inúmeros gestos de tirania psicológica, violência corporal e sexual para poder sobreviver na sombra da dependência do marido, que covardemente lhe poda dia a dia as possibilidades de reação.

Em uma determinada cidade brasileira em que residi, conheci Júlio (nome fictício), um brilhante orador, que devido a sua desenvoltura desde seus 17 anos era um respeitado líder religioso. Carismático, emblemático e instigante, assim logo o percebia quem se aproximava dele. No entanto, Júlio em sua casa era um monstro, sua esposa Mara (nome fictício) e seu filho José (nome fictício), sempre bem vestidos e apresentados, traziam para além dos olhos angústia e desespero. Mãe e filho poucas vezes foram vistos vestidos com roupas que não cobrissem quase todo o corpo. Com o tempo soube-se que isso era para esconder as marcas de violência que carregavam.

O tempo passou e por mais ou menos 20 anos fiquei sem notícias de Júlio, até que em agosto de 2016, soube da tragédia que assolou sua casa. Seu filho tornou-se um professor universitário respeitado, tanto que cursou duas pós-graduações no exterior, mas apesar de sua independência intelectual e financeira, não conseguia se libertar da tirania do pai e quando alguém tentava alertá-lo que não mais precisava passar pelas humilhações, inacreditavelmente defendia com unhas e dentes o agressor. As coisas pioraram quando Júlio soube da homossexualidade de José. As agressões e o terrorismo psicológico em uma escala muito grande levaram José a dependurar-se pelo pescoço em uma corda na varanda da casa da família.

Com a morte do filho, Júlio passou a ser visto por seus seguidores como um mártir, alguém que o “inimigo” de uma forma ou de outra tentava desestabilizar para que abandonasse a sua fé e para isso usou seu filho José, que encantado pelos saberes mundanos tinha abandonado a igreja do pai. Mara aumentou ainda mais o buraco que trazia no peito agravando sua depressão, até que dois anos após a morte do filho resolveu colocar um fim em tudo. Em uma determinada madrugada se apossou da arma de Júlio e o alvejou com cinco tiros enquanto ele dormia, na sequência disparou outro tiro contra a própria cabeça.

Mara e José são pequenos recortes da violência doméstica que ocorre a cada segundo em nosso país, assim como em outras partes do mundo. Violência que se torna invisível devido a pressão e ao terrorismo psicológico a que são submetidas suas vítimas, além de terem a autoestima e a capacidade de reação levadas a zero, tanto que tornam-se joguetes nas mãos do agressor a ponto de defendê-lo, isto é, são acometidas pela Síndrome de Estocolmo.

Segundo a testemunha dos fatos, por quem soube desses acontecimentos, Júlio mesmo depois de morto continua venerado por sua comunidade como um homem de fé, integro e honrado, enquanto que Mara e José são vistos como vilões dessa história trágica, pois o mundo em que vivemos é um mundo no qual as aparências possuem um valor significante em detrimento as reais circunstâncias em que são projetadas.

Davi Roballo

 

 

 

 

 

 

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