A categorização do amor

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Entre todos os animais e devido a racionalização, nós, seres humanos somos apegados a noção de propriedade, tanto que praticamente elegemos o Ter como algo essencial a nossa própria existência. Em nosso dia a dia tudo se acerca de uma ideia de posse: meu carro, minha casa, meus filhos, minha esposa, meu marido e etc.. Não percebemos, mas agimos como se as pessoas, assim como os objetos fossem nossas possessões, quando na verdade nem mesmo nós nos pertencemos.

Querendo ou não, convivemos com a falsa perspectiva de que o outro é conceitualmente menos do que nós, dado a isso, agimos como se tivéssemos o direito de impor nossas ideias e vontades, enfim, desejamos colonizá-lo como se o mesmo fosse uma terra arrasada e sem dono. Talvez de forma inconsciente, não aceitamos a realidade nua e crua de que somos todos iguais e para mascarar essa evidência, construímos vários conceitos e rótulos para nos diferenciarmos: negro, branco, amarelo, vermelho, inteligente, obtuso, feio, belo…

Não bastassem os artifícios que aparentemente nos tornam desiguais, construímos também muros ao redor de nós mesmos, pois tememos uns aos outros, mesmo assim buscamos constantemente o amor, embora esse sentimento seja totalmente barrado nos obstáculos que delimitam nossas próprias fronteiras, porquanto mesmo vivendo em comunidades nosso mundo interior é um país sentimentalmente quase isolado, que só se permite relacionamentos restritos.

Desejamos mais do que tudo amar, mas nos falta o entendimento sobre o que é o amor, a noção que temos desse sentimento é muito limitada, pois buscamos vivenciá-lo baseados em um estreito limite em que vivemos, isto é, só nos permitimos amar os pais, o esposo, a esposa, os filhos, os amigos e assim como nos dividimos em rótulos, rotulamos também em vários tipos de amor um sentimento que é único e uniforme.

A busca por uma categorização do amor tem nos feito propagar vários equívocos, como confundir o amor com o ato sexual. Nesse ato tirânico do gene em busca da replicação há em si a violência da invasão, da irrupção, a tirania do desejo, a apelação da carne, portanto, o que fazemos entre quatro paredes é sexo, a busca do gene por continuidade. O amor está além da carne, é algo que tem a ver com a alma e é tão simples que amamos sem perceber.

Embora, desejamos viver o amor por completo, a nossa falsa noção de propriedade impede que isso ocorra a partir do ponto em que passamos a categorizá-lo. Se o amor fosse tratado como realmente o é, sem categorização, não teríamos fronteiras territoriais e nem de sentimentos, não haveria guerra, fome e nem miséria, mas a noção vazia do Ter nos escraviza fazendo-nos aprisionar o amor e delimitá-lo ao máximo possível, pois o amor em liberdade ameaça a tirania do ego.

Em nossos convívios sociais e afetivos o que reina é a desconfiança,consequentemente a isso, surge a não entrega e os relacionamentos sem sinceridade.Nãoamarmos o outro como a nós mesmos, pois a cultura, a tradição e os costumes nos ensinam desde cedo a fragilizar e assassinar o amor categorizando-o diante da classe social e econômica divergentes, como também ante a cor da pele e o grau de instrução intelectual.

Não é preciso ir muito longe para perceber que o amor tem de surgir de dentro de nós mesmos, isto é, amar a si mesmo em primeiro lugar e a partir disso expandir esse sentimento a quem estiver pronto para absorvê-lo. Nesse contexto jamais devemos entender o amar a si mesmo como um ato egoístico, mas como um ato de humanidade, pois só pode dar quem possui e só pode ensinar quem aprendeu, tirando isso, tentar amar o outro sem amar a si mesmo está fadado ao fracasso.

O caminho que conduz ao amor verdadeiro é difícil e pesaroso ante os obstáculos construídos para que homem domine o próprio homem e o amor por completo não entre, mas fragmentos dele a fim de manter a sociedade viva e nutrida de esperança de que um dia possa alcançar o mais nobre dos sentimentos em toda sua plenitude, enquanto os governantes desalmados promovem a guerra e a miséria em beneficio do próprio ego.

Davi Roballo

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